Consumo digital: a apropriação da internet como identidade

Na noite desta segunda-feira, tivemos a presença da Dra. em Antropologia Social, Sandra Rubia da Silva, guiando o debate sobre a problematização dos estudos sobre a internet no campo da Comunicação

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Culturas digitais, consumo e diversidade. A tecnologia não é mais uma simples ferramenta, ela revela as experiências e faz parte da vida das pessoas. Manuel Castells cita que “A internet é, acima de tudo, uma criação cultural”. Foi com esse pensamento que a professora Dra. Sandra Rubia da Silva, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFSM, iniciou o debate sobre a problematização dos estudos sobre a internet no campo da Comunicação, na Semana Acadêmica da Comunicação 2018.

Ao relatar suas pesquisas este campo de estudo, Sandra trouxe o questionamento sobre o significado da internet, desde a criação do primeiro site em agosto de 1980 por Tim Berners-Lee, conhecido como World Wide Web (www), até o estudo do comportamento dos indivíduos diante de tanta exposição nas redes. “A internet foi pensada para ser livre para todos, para o conhecimento. É muito mais que uma rede de computadores, são pessoas. Há uma multiplicidade de públicos que acessam a internet, temos pessoas atrás dos computadores, discursos que circulam. As pessoas têm utilizado de uma forma que quem criou, não imaginava”, analisa a professora.

Entre os dados apresentados, Sandra Rubia cita a carta aberta escrita por Berners-Lee e publicada pelo The Guardian, traduzida pela Revista Exame, em que ele revela a preocupação com a falta de regulamentação na internet, o que faz com que o poder fique centralizado nas mãos de grandes empresas de tecnologia, o que é considerado por ele uma arma. Conforme o criador, pessoas das camadas de baixa renda podem ainda não ter acesso a internet até 2042 devido à interferência dessas grandes empresas comerciais, o que interfere não só na democracia, mas também na forma como as pessoas recebem informação.

Em busca de repostas para suas pesquisas, a professora foi à campo e se deparou com a importância dada pelos entrevistados que tinham acesso à rede, aos seus celulares/smartphones. O quanto estes objetos transformavam o meio em que estas pessoas estavam inseridas e como era a relação destas com o mundo virtual. “Para estas comunidades, a internet é o Facebook que é, na verdade, apenas uma rede social. Mesmo com a ascensão da tecnologia, há muitos grupos excluídos, muitas pessoas não têm acesso à internet. A diversidade não alcança todos da mesma forma. O Brasil tem um dos piores índices de conectividade e um dos serviços mais caros do mundo”, explica.

Parafraseando a pesquisadora britânica, Christine Hine, autora do livro Etnografia para internet, a internet está incorporada no tecido social, é um fenômeno de atenção. “A internet é vista como um artefato cultural, pois as pessoas não entram mais na rede, a gente não surfa mais, porque ela está embargada em tudo o que fazemos, nos nossos smartphones”, afirma Sandra. Um projeto de pesquisa global chamado Why we Post (Por que postamos), investiga os usos e consequências das mídias sociais, e traz a público as indagações referentes ao comportamento dos usuários. Para a doutora, os estudos existentes ainda são poucos, mas cada vez mais importantes para entender a identidade nas redes.

Aos acadêmicos e futuros pesquisadores, a professora encoraja o desafio de pesquisar e frisa a importância de voltar aos locais em que a pesquisa foi realizada in loco, e dar o feedback do trabalho concluído aos entrevistados. “Fazer uma pesquisa é muito mais que coletar dados, é se envolver com as pessoas. É importante devolver esses saberes às pessoas que participaram da pesquisa, pois elas nos permitiram um tempo delas para conceder o seu conhecimento e suas histórias”, conclui.

Questionamentos dos alunos:

Discursos de ódio

“É um fenômeno que infelizmente emerge, por um lado por causa dessa polarização das redes sociais e de outro lado, porque aparentemente muitos não conseguem considerar ainda que a internet não é mais no anonimato, como era nos anos 90. E parece, essa é uma hipótese, que não tem medo de virem a ser pegos nos crimes cibernéticos. Mas tem ainda um outro elemento, porque tem aqueles que mesmo sabendo não se importam, e se sentem à vontade para despejar o seu discurso de ódio. Isso deve ser difícil para o pesquisador. E nós precisamos sim, falar do discurso de ódio, falar de preconceito na internet, porque a internet é um ambiente público, por excelência, e altamente disseminador desses discursos”.

Menos pesquisas bibliográficas, mais pesquisas etnográficas/in loco

“Eu defendi o TCC em 99, trabalhei naquele momento mais com uma descrição, uma análise de conteúdo. O meu mestrado eu fiz na Fabico, e trabalhei mais próxima de uma semiologia, pensando em sites da internet como discurso. E aí, realmente no doutorado, eu queria muito fazer etnografia, ir para o trabalho de campo mesmo. Em termos de resultado, o que eu posso dizer: resultados não previstos, eu só posso falar da minha experiência como pesquisadora, e eu acho que, para cada problema de pesquisa a sua abordagem metodológica, o seu desenho de acordo com o problema e os objetivos que são propostos. Mas no caso da etnografia, o que eu observo das pesquisas dos orientandos são resultados que não estavam previstos originalmente. Mudança de curso, às vezes entre os orientandos, uma frustração, um medo, pelo fato dos resultados não serem previstos. Mas por outro lado, é que eu quero resgatar algumas palavras que eu ouvi de professoras em banca, e elas disseram: realmente, há um grande desafio colocado quando vem esses resultados, que são inesperados, por outro lado, pode ser uma pesquisa que não traga mais do mesmo. Quando a gente trabalha com pessoas, com essa longa convivência, com o tempo, nós temos que ter muita paciência, porque as coisas não acontecem automaticamente”.

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Daniella Koslowski, acadêmica de Jornalismo.

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