Egresso de Publicidade e Propaganda fala sobre os desafios de lançar um filme sobre inclusão

Diretor de Cromossomo 21 destaca a importância do incentivo durante sua formação acadêmica na Unijuí

Na Unijuí, a semana foi marcada pela recepção aos docentes e técnicos administrativos e de apoio da Universidade. O objetivo foi realizar um acolhimento aos profissionais dos quatro campi da Unijuí com uma sessão de cinema que buscou provocar o pensamento crítico sobre os desafios da inclusão em nosso dia a dia.

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Para fomentar essa discussão, ninguém melhor que um publicitário, apaixonado por cinema, que desde o início de sua formação profissional, lutava pelo conhecimento, pela quebra dos paradigmas e pelo olhar sensível às situações que o mundo colocava à sua frente. Alex Duarte, egresso de Publicidade e Propaganda da Unijuí, explanou aos presentes o caminho que trilhou até o lançamento do filme Cromossomo 21, que esteve em cartaz nos cinemas de todo Brasil em novembro de 2017.

Hoje, aos 29 anos, Alex vive no Rio de Janeiro e passa muitas horas em voos pelo país para dar palestras. Foram mais de 500 em 18 estados brasileiros com a participação de mais de 100 mil pessoas. Em 2016, o projeto Cromossomo 21 rompeu fronteiras e foi levado a Nova York na forma de livro e como representante do Brasil na ONU no Dia Internacional da Síndrome de Down. Rompeu também fronteiras digitais e gerou a web série Geração 21.

O sonho começou quando, ainda na faculdade, Alex precisou entrevistar uma menina com Síndrome de Down. Ela foi a grande inspiração do roteiro criado pelo publicitário para debater o tema tão importante da inclusão. Em sua fala, o egresso celebrou o retorno à universidade em que teve sua formação e ressaltou a importância da presença dos seus professores, que o incentivaram e o motivaram a seguir em frente com a ideia do filme. “Esse espaço, os professores que tive, cada um de forma especial. Essa instituição. Esse espaço de formação profissional. Tudo isso foi muito importante para que eu pudesse levar adiante meu sonho. Foi importante para que eu desenvolvesse o meu pensamento crítico e social e, sobretudo, entendesse a importância de mostrar isso ao mundo”, declarou.

O filme demorou longos anos até ser finalizado e finalmente lançado ao público, ganhando espaço nos cinemas de todo país. Alex conta que foram inúmeros os desafios, especialmente por ser um filme independente, contando apenas com parcerias cooperativas e seu próprio empenho para que pudesse dar certo sem uma produtora por trás.

No entanto, o que começou como um sonho de lançar um filme, ganhou proporções muito maiores e hoje, o publicitário está profundamente envolvido na causa da inclusão social, realizando palestras sobre o tema no Brasil e no exterior. Em 2015 foi lançado o livro duplo: “21, do diagnóstico à independência” e “Cromossomo 21”, escritos pelo diretor.

Para os acadêmicos de Comunicação que, assim como ele, sonham em fazer a diferença, Alex frisa: “Façam, independente do que as outras pessoas pensam ou falam. Façam! Lembrem-se que a impossibilidade às vezes está na cabeça do outro, não na sua. E aí mora a diferença entre sonhar e realizar. Viaje muito, leia, expanda sua mente e procure andar com pessoas positivas e de bom coração. Elas farão diferença nesta jornada”.

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Reflexos sociais e desafios

Realização de baixo orçamento, produzida de forma cooperativada e com recursos próprios, o longa-metragem teve Menção Honrosa no Festival de Gramado 2016, venceu como filme destaque no Los Angeles Brazilian Film Festival, foi premiado como Melhor Filme (voto popular) no Festival Internacional de Cinema de La Mujer, e melhor Filme do Festival Internacional de Cinema no Rio de Janeiro- FICC e melhor atriz (Adriele Pelentir), neste mesmo festival.

Os anos que separam o início das filmagens do lançamento do filme, transformaram a vida da protagonista, Adriele que tem síndrome de Down, inspirou a história e a representou na ficção,  do ator Luís Fernando Irgang, que elegeu como tema de seu trabalho de TCC em Administração na Unijuí a inclusão social nas empresas, e, sobretudo, a vida de Alex. No dia em que ele Conheceu Adriele, ela lhe fez a pergunta que complementa o título do longa: O que você faria se fosse impedido de amar? “Eu quero saber quais respostas as pessoas podem dar a esta pergunta depois de ver o filme”, diz Alex.

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De acordo com você, o seu encontro com a Adriele gerou a vontade de fazer o filme. O que foi tão motivador neste encontro?

Eu tinha acabado de fazer meu documentário sobre o Haiti e já buscava ideias para outro filme, quando fui escalado para entrevistar a Adriele para o jornal local onde eu estagiava. O motivo da matéria: ela tinha passado no vestibular para Nutrição. Quando eu comecei a conversar com ela, percebi que ia ter que rever meus pontos de vista a respeito do que era interagir com uma pessoa com Síndrome de Down. A Adriele me fez logo de cara uma pergunta que me desconcertou, ela perguntou se eu tinha um melhor amigo, eu disse que sim e perguntei por quê, ela respondeu: “porque eu não tenho, Alex. Você quer ser meu melhor amigo?”. A pergunta me desconcertou e ela continuou: E o que você faria se nessa vida não pudesse amar? A partir deste dia, passei a frequentar a casa dela, nossas famílias se aproximaram, nos tornamos grandes amigos, ao mesmo tempo em que amadurecia a vontade de fazer um filme com ela. Foi então que me veio a ideia de uma história de amor entre uma garota que tem Síndrome de Down e um jovem que não tem.

 

Adriele tem o papel mais importante no filme. Que tipo de preparação foi feita, já que ela nunca tinha trabalhado como atriz?

Fizemos um teste e ela se saiu muito bem. Então demos início a um laboratório que durou oito meses. A Adriele rouba a cena de CROMOSSOMO 21, e não tem nada a ver com o cromossomo a mais que ela carrega. Adriele busca tudo aquilo que ela quer. Conseguiu transitar do cômico ao dramático e teve maturidade para encarar as cenas de amor.

 

De onde vieram os recursos para dar início às filmagens?

De forma independente, com recursos do próprio bolso. Depois, fomos juntando colaboradores na cidade. Uma parte do filme CROMOSSOMO 21 foi produzido de forma cooperativada. Em 2016 captamos via Lei de Incentivo à Cultura os recursos que faltavam para a finalização, colorização, dublagem, como por exemplo, a correção de áudio com a coordenação do mestre Kiko Ferraz.

 

Você acha que ter realizado o documentário no Haiti te trouxe um diferencial para a produção de Cromossomo 21?

Documentar no Haiti, como objeto de estudo para meu Trabalho de Conclusão de Curso, me colocou dentro da realidade, e CROMOSSOMO 21, apesar de ser uma ficção, tem muita coisa da vivência real. Todo o laboratório que eu fiz com a Adriele foi muito real, muitos diálogos que estão no filme resultaram de falas dela, de experiências dela. Estes sete anos transitando dentro da inclusão no Brasil me possibilitou imprimir no filme uma visão realista do amor sob o ponto de vista de uma jovem com Síndrome de Down.

 

Nestes últimos anos, você se dedicou a dar palestras sobre Síndrome de Down, escreveu um livro sobre o tema, criou uma web série e produziu o longa-metragem. Fale um pouco desse projeto. Cresceu, não?

Sim, cresceu muito. O livro foi lançado em 2015, e ele tem um formato duplo: de um lado, ele conta a história do filme, do ponto de vista da protagonista; do outro há o relato de casos de muitos jovens com Síndrome de Down que têm conquistado a sua independência, a sua autonomia. As palestras, eu venho fazendo ininterruptamente desde 2010. É muita dedicação, os retornos são sempre muito importantes. Desde o ano passado, eu comecei a documentar encontros com pessoas com Down e criei uma web série chamada Geração 21 (disponível no youtube), mostrando 12 jovens com Down na busca de sua autonomia. A série já foi selecionada para diversos festivais do Brasil.

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