É correto noticiar suicídio?

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Muitas vezes, na profissão do jornalista, surgem momentos em que não se sabe como noticiar algo, ou se esse fato que temos em mãos deve ser noticiado. Um dos exemplos disso é a morte, ou melhor, o suicídio. Nelson Traquina, teórico português afirma que a morte é um critério de noticiabilidade por excelência no jornalismo. O fim da vida é um acontecimento, diariamente apresentado nos jornais, TVs e outros meios de comunicação. O suicídio, um modo de morrer provocado pela própria vítima, seguindo essa lógica, poderia também ser notícia. Mas, segundo a professora de Jornalismo da UNIJUÍ, Lara Nasi não é. E por inúmeras razões.

“Uma delas porque, ao falar sobre a morte, o jornalista deverá responder às questões do lide (O quê? Quem? Quando? Onde? Como? Por quê?), que guia a apuração e redação do texto jornalístico. Ao buscar respostas para essas questões, especialmente à pergunta por que, poderia expor a vida privada da pessoa que cometeu suicídio, de seus familiares, e supor motivos que não dariam conta da complexidade que é a morte a si”, relata.

Em 2000, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou um manual sobre prevenção do suicídio para profissionais da mídia. Neste manual, a OMS explica que a maior parte das pessoas que comete suicídio é ambivalente e não estão realmente certas de que querem morrer. “Ocorre que o jornalismo, ao noticiar casos de suicídio e explicar como ele aconteceu, pode incentivar outras pessoas a fazê-lo”, diz a professora. Alguns estudos sugerem que até dez dias depois da publicação de notícias de suicídio, mais suicídios ocorrem, influenciados pelo comportamento noticiado. “Logo, o jornalista, em sua função social, deve ajudar a evitar que este tipo de morte ocorra, e não promovê-la”, frisa.

Quando publicar

Isso não significa que não se possa falar sobre suicídio na imprensa. Na verdade, se deve, já que se configura como um problema de saúde e uma grande causa de mortalidade. “Por isso, as matérias sobre o suicídio devem sempre associá-lo como um problema de saúde, que pode ser evitado. É possível mencionar os serviços de saúde e onde é possível obter ajuda, listar sinais de alerta de comportamento suicida, esclarecer que o comportamento suicida geralmente associa-se com depressão, e que é tratável. Casos isolados, a morte por suicídio em si, essa deve ser evitada, a menos que envolva personalidades. Um exemplo importante foi a morte do então presidente Getúlio Vargas. Era necessário explicar o que havia causado sua morte”, explica.

Ética profissional

Segundo Lara há uma espécie de “acordo cavalheiros” na imprensa para não publicar e, consequentemente, não incentivar novas mortes por suicídio. Com o avanço das tecnologias de informação, e o fim da obrigatoriedade de diploma para o exercício do jornalismo, muitos portais e sites são feitos por pessoas que não são jornalistas. Esses sites adotam as lógicas da linguagem jornalística, mas sem seguir os processos de apuração e as práticas profissionais da área. “Talvez por isso ignorem recomendações como as da OMS sobre o suicídio. Seria importante que esses portais e sites adotassem também essas recomendações, já que as informações que produzem fazer circular sentidos e, portanto, podem incentivar novos casos”, conclui Lara.

Vamos falar sobre esse assunto?

Setembro foi adotado como o mês de prevenção ao suicídio. Assim como o Outubro Rosa o Novembro Azul, Setembro também ganhou uma cor: a amarela. Assim como descrito acima pela professora Lara, falar sobre esse assunto é importante, desde que seja da forma correta. E para explicar como fazer isso e debater mais sobre o assunto, no dia 30 de setembro, às 14h, acontecerá uma palestra no Auditório do Hospital de Caridade de Ijuí (HCI), com o psiquiatra Bruno Guidolin, a jornalista Lara Nasi e o agente comunitário de saúde Sandro Beck.

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