A mídia batendo o martelo do júri

stock-photo-783498-gavel-and-sounding-blockDe um lado, a cobertura noticiosa. De outro, o poder judiciário. Jornalismo e Direito: uma relação conflituosa, polêmica e fértil. Afinal, até que ponto a cobertura jornalística influencia na decisão dos julgamentos? Esta é uma pergunta que rende inúmeros debates e diferentes investigações. Além de tudo, discutir este assunto trás a tona uma das grandes inquietações de jornalistas: como cobrir um caso que envolve uma grande mobilização e sensibilização da sociedade?

Neste ponto mora uma das maiores polêmicas do cenário democrático. O trabalho da mídia é fundamental para a promoção da cidadania, precisa-se dos meios de comunicação para informar as pessoas e tirar da escuridão fatos e dados camuflados pelas demais instituições de poder. Contudo, não raras vezes, quando o assunto é julgamento social, as manchetes, notícias, e outras publicações acabam produzindo pré-julgamentos que influenciam direta ou indiretamente a batida do malhete pelo juiz. E quando o que a mídia dissemina não condiz com a verdade, determinando injustiças sociais é que o bicho pega pra valer.

Você se lembra do famoso caso da Escola de Base (1994)? Pois é, passados cerca de 20 anos do acontecimento, ele continua atual na discussão sobre mídia e justiça. Na época, seis funcionários desta escola do interior de São Paulo foram presos e acusados de pedofilia. Manchetes de jornal, reportagens de televisão e diversos meios bombardearam supostas informações sobre os réus. O Jornal Nacional soltou a bomba. Veiculou, no dia 29 de março de 1994, uma reportagem que acusava os donos da Escola de Educação Infantil Base de praticarem abuso sexual contra as crianças que ali estudavam. Nos dias seguintes, veículos de comunicação de todo o país seguiram disseminando informações nesta mesma linha.

Mas ao contrário do que a Polícia Civil e a imprensa proclamaram, a investigação decretou a inocência dos quatro empresários. Uma inocência vinda depois de muita exposição, julgamentos, perdas materiais, morais e injustiças. Só a Rede Globo foi condenada a pagar R$ 1,35 milhão para reparar os danos morais sofridos pelos donos e pelo motorista da Escola Base.

O caso virou o Calcanhar de Aquiles da história da mídia. Assim como este existem outros exemplos que podem ser explorados para a reflexão. A cobertura midiática da imprensa edita de alguma forma conceitos e induz a formação da opinião pública. A sociedade antes mesmo do juiz bater o martelo já possui a sua própria decisão. Depois só apóia ou reprova a decisão da justiça. Este cenário se mostra ainda mais claro quando determinados julgamentos passam pelo júri-popular. O pré-julgamento da imprensa é mais explícito em casos que geram comoção popular, como o assassinato de Isabella Nardoni (2008) ou na cobertura jornalística da tragédia de Santa Maria, em janeiro de 2013.

Esses exemplos nos levam a considerar a discussão sobre quais são os limites e quais são as possibilidades da relação entre mídia e poder judiciário em uma perspectiva para a qualidade da informação no Brasil e no mundo. Colocando em destaque a questão levantada pelo juiz federal e professor da Universidade Norte do Paraná (Unopar), Artur César de Souza, em notícia do jornal online Gazeta do Povo. Para ele, “cabe à imprensa apontar as mazelas da Justiça, indicar o retardamento dos julgamentos. É a polícia quem deve investigar e é o Poder Judiciário quem deve julgar”.

Cabe a nós, estudantes e profissionais da comunicação estudar sobre esta pauta, observar com olhos críticos, e situar em nossos conceitos e percepções cidadãs o lugar da mídia na sociedade. Um lugar privilegiado. De poder. Um poder que não deve dar uma mãozinha na concretização de uma justiça falha, mas deve contribuir para a transparência pública e para o exercício de uma democracia real, participativa e que exista não só grafada no livro da Constituição Federal, mas que exista nas páginas do cotidiano de todas as pessoas.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s