As lições do Projeto Rondon – PARTE 2

Ações/Oficinas

Ao longo das nove oficinas realizadas, conhecemos e aprendemos com a população cansançãoense. Discutimos temas como fotografia, saneamento básico, agricultura, pecuária, lixo, armazenamento e captação de água. O método idealizado pelos coordenadores (Pesquisa-ação) foi excelente. Mesclávamos um diagnóstico rápido participativo (registro fotográfico do local), com os conteúdos técnicos que pesquisamos e organizamos durante a capacitação anterior. Lá na frente, junto a tela de projeção do data show, não apenas se viam camisetas amarelas, como também, os professores do sertão. Afinal, quem melhor para falar sobre a realidade, senão, as pessoas que vivem e sobrevivem nela? Nos surpreendemos com o que vimos e ouvimos. A participação de todos foi nota 10, ou melhor, mil. Todos se manifestavam, falavam sobre as problemáticas, contavam histórias, exemplos, explicando para nós como é a situação local. Possíveis soluções emergiam dessa troca de experiências.

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Descobrimos um Brasil que estava longe de nossos olhos e de nossa consciência. Todos sabem das dificuldades que passa um nordestino, mas viver na pele essas dificuldades ou, ao menos, sentir e ver legítimos casos de exclusão das comunidades, no que se refere principalmente a questões de saúde pública foi algo que nos surpreendeu. O simples fato de ligar a torneira e não sair nenhum pingo de água, como aconteceu em vários povoados que visitamos, já é uma grande lição, de que ainda existe um país subdesenvolvido por detrás da máscara dos índices de crescimento do Brasil.

No embalo do sotaque baiano e do sotaque gaúcho se evidenciava a legítima construção do conhecimento. A multidisciplinaridade e interdisciplinaridade que guiavam a proposta inicial, “Ações multidisciplinares na construção de soluções para o desenvolvimento e sustentabilidade”, fazia com que cada rondonista aprendesse um com o outro.  No meu caso, fiquei éxpert, em cisternas, cacimbas, banheiros secos, fossas sépticas (Não é dupla infalível da Engenharia Civil, Geannina e Cândida?); aprendi um pouco mais sobre os cuidados e tratamento de animais com a nossa futura Veterinária Pâmela; aprendi e também falei sobre o lixo e reciclagem junto com o futuro Biólogo Manuel. Também decorei as principais culturas agrícolas da região nordeste, o sisal, o licori, o umbu, a seriguela, e os tipos de solos, vegetação com os futuros Agrônomos, Ana Lúcia e Carlos Rupollo. Junto com minha colega do Jornalismo, Talita Mazzola aprendi um pouco mais sobre fotografia e organização de eventos. Enfim, um metia o bedelho na oficina do outro, deixando tudo mais rico e construtivo. No final, qualquer um podia ministrar e falar sobre qualquer tema. Era um por todos e todos por um, sem sombra de dúvida!

Sabíamos que a equipe de amarelinhos estava deixando marcas no local. As mesmas marcas que a cerca de 30 anos atrás já haviam passado por ali. Por onde passávamos, as pessoas conversavam conosco, contando que ainda  eram crianças quando o Projeto Rondon desembarcou pela primeira vez na cidade. O Rondon conquistou credibilidade com os cidadãos, foi e é sinal de esperança, cidadania e expectativas de um país melhor.

E por falar em expectativas, as nossas foram superadas. Todo trabalho valeu a pena, só pelos olhares e pelo carinho das crianças que corriam para nos abraçar. Que curiosas, pediam mais informações: de onde vínhamos, o porquê de estarmos ali. De mãos dadas, iam nos contando orgulhosas um pouco do local onde viviam, de sua escola, de seus pais. Felizes, nos davam lugar nas longas filas para o almoço. Felizes, também nos viam trazer a sobremesa, “você quer”? Empolgadas, nos pediam para ficar, ou nos indagavam sobre o dia em que voltaríamos a vê-las. No povoado de Cacimbas (17/01), foi quando ficamos mais perto dessa inocência emocionante que é a infância. Foi lá que vimos o olhar úmido de crianças que não queriam que fôssemos embora, ou que, de alguma forma, almejavam não perder o contato: quantos pedidos de amizade novos no Facebook, hein rondonistas?

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As crianças são apenas um exemplo de todo o calor humano que nos acolheu. Um calor quente ‘demais da conta sô’, fervendo de amor, hospitalidade, carinho, admiração, satisfação e orgulho. Tá certo que enjoamos um pouco da tal da cor amarela, eu confesso, todos confessamos. Todos os passos fora de casa deveriam ser dados ou de camiseta ou de colete, era regra. Mas não dá para negar que o uso das camisetas amarelas nos proporcionou todos os olhares carinhosos que jamais esqueceremos: “Olha o Rondon aí gente”.

Por todos os lugares que passávamos, seja no aeroporto, nas ruas, as pessoas perguntavam sobre o Projeto, outras, inclusive, se identificavam e paravam para conversar conosco sobre o tempo em que também foram rondonistas. O respeito com que as pessoas nos olhavam e tratavam não tem preço. A gostosa vontade de nos tratar bem, era, literalmente, saborosa. Uma família de Lagoa da Baixa deixou seus afazeres de lado, para preparar a famosa caxicha (Suco de caroço de umbu com leite de licori). Pratos típicos compunham os lanches: suco de umbu (muito parecido com o nosso suco de butiá), beiju de tapioca, suco de caju, goiaba, arroz doce com leite de licori, entre outras delícias.

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Tudo carinhosamente preparado para agradar os gaúchos. Sem palavras para agradecer por tudo. Apenas uma observação: o nordestino foi escolhido pelo Projeto Rondon pelas suas necessidades, mas com certeza, poderia ter sido escolhido pelo jeito acolhedor com que é capaz de recepcionar as equipes.  Fomos recebidos com uma energia positiva que destrói e esfria a seca com a qual são obrigados a conviver. Sem deixar de mencionar o inesquecível coentro, que deixou marcas no nosso paladar. Demoramos um pouco para nos acostumarmos com os temperos “calientes” utilizados na culinária nordestina, se é que nos acostumamos! Mas faz parte.

É nesse embalo que passamos duas semanas quase nos sentindo em casa, morando como uma família normal, enfrentando os desafios de se viver 24h em grupo, de trabalhar 9h por dia, de chegar no quarto e dizer: cama, fomos feitos um para o outro! E o poder do Rondon ultrapassa o explicável: ironicamente, fizemos chover no norte do sertão baiano. Deu até para tomar banho de chuva e correr sobre o chão empossado de água, brincando de lets. Quando anos temos? Não sei. O Rondon faz milagres, rompe barreiras, fronteiras, idades, ideologias, culturas e visões de mundo.

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No próximo post, você confere como foi a parceria da UNIJUÍ com o pessoal da UNITRI-MG (Centro Universitário do Triângulo). Juntas as duas universidades completavam o conjunto de ações que foram desenvolvidas em Cansanção-BA. 

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