Onde o fato encontra a palavra I

Um giro pela literatura e pelo jornalismo. A proposta da disciplina de “Oficina de leitura e produção de texto”, no primeiro semestre de 2012, foi incentivar a produção jornalística autoral, dando margem para a pesquisa de recursos narrativos diferenciados na produção textual. Orientados pelo professor Marcio Granez, os alunos desenvolveram crônicas, reportagens, contos e perfis, sempre de olho nas contribuições que ambas as áreas – literatura e jornalismo – podem oferecer. O Blog da Usina abre espaço para a divulgação de alguns dos textos produzidos.

E para começar que tal viajarmos por uma fantasia. Confira o conto de Mariana Rick:


A história de Mariana Rick foi inspirada no conto “Pequeno e Precioso Conto de Calvino”, do livro “As Cosmicómicas”, de Ítalo Calvino.

O professor George Hermschell estudava ali, naquela tribo, a queda de expectativa de vida dos Mankansas. Denúncias apontavam a negligência governamental. A universidade havia liberado-o e financiado o estudo. Teria muito que ensinar aos seus alunos quando voltasse.

Olhando as fotografias, Dr. Hermschell recorda os momentos vividos na selva. Sim, na selva. Ele estivera três anos com a tribo, e gostaria de estar lá novamente. Lembranças invadem a mente do professor.

 …

– Branco-Herm, esta noite teremos a Festa dos Homens da Tribo. Solicitamos a sua presença.

 – Pagé, será uma honra comparecer. – responde Hermschell.

Quantos eram na festa? Cerca de três mil. Homens e mulheres, todos na Festa dos Homens da Tribo. Hermschell havia pesquisado sobre o ritual, assim como todos os outros aspectos da vida dos índios. Era o rito de passagem dos jovens Mankansas para a vida adulta.

Com um belo e trabalhado adorno na cabeça, além de pintura por todo o corpo, o professor aprendia com aqueles homens.  Cantava, dançava, e vivia como eles.  Começou a entender a razão pela qual estudava e lecionava História. E ali se identificou. Nos dois primeiros anos, já era considerado o branco mais bem aceito em uma tribo indígena, tamanha sua capacidade de relacionamento.

Numa manhã, restando três meses até o seu regresso à universidade, George acordou se sentindo diferente. Com dores no corpo, e dores fortes. Não conseguiu levantar-se. O Pagé foi chamado, e examinou o homem. Balançou a cabeça, e com um gesto, mandou que trouxessem preparados de ervas.

Dois dias se passaram e Hermschell não apresentava melhora. Sua cor alternava entre verde, azul, amarela e vermelha. Sem alternativas, os índios enviaram um mensageiro ao centro de pesquisa em História dos Povos, para que solicitasse o resgate do professor.

Dez, entre a ida do mensageiro e a vinda do resgate. Levaram o professor de volta, e trataram-no com analgésicos e antibióticos. Após o término dos exames, deram-lhe a notícia: malária.

O professor havia então, solucionado às custas da própria saúde, o mistério das mortes Mankansas. A malária, o mosquito transmissor, e não a negligência governamental. Sem tratamento que fosse eficaz, disseram-lhe:

– O senhor tem mais cinco meses de vida. Devido ao avanço da doença, não há tratamento que seja eficaz.

George passou a pesquisar antídotos para a malária, voltou para a selva, protegeu os índios, e decidiu – viveria o resto de sua vida ali.

Seis meses depois, em uma fria tarde de inverno, Hermschell suspirou pela última vez. Seu corpo foi queimado com ervas finas e deixado à deriva no lago da tribo, como fazem os índios em qualquer lugar do mundo, em oferenda aos seus deuses.

Na árvore da praça central, o Pagé mandou que fizessem a placa em homenagem ao Dr. Hermschell, com os inscritos: “Branco-Herm, historiador, médico, enfermeiro e amigo dos Mankansas”.

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