ABNT pra quê?

A monografia é, conceitualmente, um trabalho científico de investigação que pressupõe o uso da pesquisa, do diálogo com autores, tudo baseado no método.

Na maioria das vezes, passamos um bom tempo preocupados com a formatação do texto. “Como vou colocar tal citação, fonte, espaçamento, margem, autor…” Como se as informações fossem perdendo o sentido, caso não sigam essa regra. Ou melhor, perdendo o sentido na hora da avaliação, já que os olhos da banca avaliadora, em sua maioria, são educados para analisar o conteúdo que deve estar dentro das normas da ABNT.

Você já parou para pensar nisso?

Afinal, a produção do conhecimento realmente precisa seguir padrões?

O Jornalista Marcus Vinícius Carvalheiro apresentou sua monografia “Clima Frio, Calor Humano”, no Intercom Sul 2012. Foto: Reprodução Facebook.

O Jornalista Marcus Carvalheiro é contra essa ideia. Para ele, seguir os padrões da ABNT para apresentar e produzir trabalhos científicos é apenas mais um argumento de que se vive em uma sociedade viciada no sistema.  E ele foi longe para quebrar esses padrões… Desenvolveu seu trabalho de conclusão de curso fugindo das regras. E “desembarcou” no Intercom Sul 2012. Acompanhe abaixo a entrevista com o Jornalista:

O assunto de sua monografia é a vida dos moradores de rua. Como surgiu esse interesse? A vida dos moradores de rua foi um tema que me interessou depois que produzi uma matéria para um jornal impresso local, no qual eu fazia estágio. Nesta reportagem, fantasiei-me de morador de rua com a intenção de saber como estas pessoas lidavam com o frio durante o inverno. Por três dias, em períodos diferentes, andei com eles, pedi esmolas e tentei utilizar alguns serviços públicos. Felizmente, depois de concluir a matéria, percebi que minha atuação, onde dissimulei minha identidade, fez parte de um procedimento antiético, onde infantilizei os moradores de rua ao não me apresentar como pesquisador ou jornalista (e consequentemente não colocá-los a par da pesquisa).

Marcus Carvalheiro vestido de morador de rua.
Foto: Fotógrafo Pena Filho.

E isso foi um gancho para a sua investigação… Para refletir sobre este erro, os problemas da academia e a própria sociedade, resolvi voltar ao campo, mas, desta vez, como pesquisador e acompanhado dos autores, cujas obras serviram de bibliografia para minha monografia. Para conversar com estes autores e experimentar o “Contra o Método” (uma tentativa de trabalhar com a multiplicidade científica e não ficar submetido a formas e procedimentos eleitos por uma determinada comunidade), utilizei algumas ferramentas literárias que me permitiram descer estes filósofos dos pedestais intelectuais nos quais se encontram e colocá-los ao lado dos moradores de rua. Durante este ensaio monográfico refleti sobre a forma como o conhecimento é produzido e transmitido, e esta crítica tentou abordar a origem de nossa metodologia, que nasce com Descartes, e pode ser exemplificada através de normas, como as da ABNT. Por este motivo meu trabalho foge do padrão das monografias “normas” e de algumas regras acadêmicas que seguimos sem saber, ao menos, o porquê.

 

Foto: Fotógrafo Emerson Souza

Como surgiu a ideia de trabalhar o engajamento social? As questões sociais me acompanham desde o meu ensino fundamental. Durante a faculdade, a vontade de montar um trabalho que envolvesse algum tema social e que também criticasse a própria academia perpassou minha mente durante todas as disciplinas que cursei.  Tenho uma formação política desde o ensino médio, baseada no apartidarismo, próxima dos conceitos anarquistas. Por isso, durante a monografia, procurei autores que se encaixassem com o tema, foi então que conheci as obras do Paul Feyerabend, sobre o “anarquismo epistemológico”, que centralizaram meu trabalhado de conclusão de curso. Além dele, dialoguei com outros autores, como o James Clifford (no campo da etnografia), Ivan Illich (sobre a sociedade desescolarizada) e o próprio Frienderich Nietzche (sobre os conceitos de verdade).

Cite alguns exemplos de “Contra Método” presentes na sua monografia. Por exemplo, minha monografia não tem sumário (fiz a numeração das páginas em um marcador de página). Também não obedeci aos tamanhos de página e as regras para inserção de imagens. Nas questões literárias, não fiz citações literais dos autores, “conversei” com eles durante a narrativa da minha pesquisa, assim como no livro “O Café dos Filósofos Mortos”, de Nora K./Hosle. Também subverti os procedimentos éticos que implicam em registrar a autorização dos personagens com os quais lidei em campo, com a finalidade de demonstrar que uma simples “assinatura” não garante a estas pessoas uma retratação condizente com suas visões de mundo.

Marcus encerra seu texto no trabalho monográfico…

“Toda a potencialidade destes diálogos, indescritíveis em uma monografia de 100 páginas, menos ainda em um artigo como este, que mutila severamente meus estudos de alguns meses, revelam a fragilidade das metodologias que elegemos para a construção profissional ou acadêmica. Estamos condicionados a um mercado do qual não podemos nos desvincular totalmente. Por estes e outros motivos metodológicos que esta pesquisa precisará passar por uma banca avaliadora, para ter o direito de estar lado a lado de outros trabalhos igualmente mutilados, dos quais se destacarão os mais bem mutilados.”

Será que é mesmo preciso seguir as regras? É sempre bom parar e pensar um pouco, construir uma visão crítica para a vida valer a pena e não sermos meros espectadores da história…

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